terça-feira, 11 de junho de 2013

Noite na Taverna, Álvares de Azevedo


Bebamos! nem um canto de saudade! Morrem na embriaguez da vida as cores! Que importam sonhos, ilusões desfeitas? Fenecem como as flores! 
José Bonifácio
— Silêncio! moços!! acabai com essas cantilenas horríveis! Não vedes que as mulheres dormem ébrias, macilentas como defuntos? Não sentis que o sono da embriaguez pesa negro naquelas pálpebras onde a beleza sigilou os olhares da volúpia?? 
(início da obra)

Noite na Taverna, de Álvares de Azevedo, tornou-se uma espécie de ícone de uma geração transgressora. Seu texto pequeno, dividido em sete intensos e curtos capítulos, que misturam satanismo, antropofagia, incesto, necrofilia, violência e morte. Não sem motivo se tornou um imã para todos os revoltados e rebeldes. Tenho um conhecido que só procurou o livro ao saber que o mais bêbado e arruaceiro da turma tinha esse livro como seu exemplar de cabeceira, e este meu amigo, um verdadeiro intelectual, nunca tinha o tinha lido na vida.


Álvares de Azevedo teve uma vida breve, muito inspirado pela literatura européia, a literatura fantástica de Lord Byron, Goethe, Françóis-René de Chateaubriand e Alfred de Musset. E ele próprio era um dínamo da literatura, na habilidade da escrita e de línguas. Aos dez anos já falava inglês, francês e latim. Infelizmente sua vida foi abreviada pela tuberculose e por uma queda mal vinda a cavalo. Ele viveu exatamente de 1838 a 1858, falecendo no ano exato que "mi Buenos Aires querido" recebia seu café europeu que existe até hoje, o Café Tortoni, onde outros escritores fabulosos se reuniam para um café, como Borges, Llosa e o próprio Albert Einstein já foi cliente lá, mas eu tergiverso...

Seu livro, o que vemos registrado ao longo dos sete contos, é ambientado numa taverna qualquer, um lugar como Hotel Califórnia (a música do Eagles), onde criadores e criaturas podem se encontrar, e a noite parece eterna lá fora, numa longa jornada de histórias e vinhos, discutindo infâmias e loucuras, numa linguagem vezes mais rica que qualquer político prolixo dos dias de hoje. Solfiere, Bertran e outros nomes nos remetem a lugares no Brasil, bem como suas histórias que narram por vezes ao redor das capitais do mundo, fazendo da taverna atemporal e sem âncora sobre pátria alguma. 

E não faltam vinhos, fumos, violências, referências às mulheres, vivas e mortas, e referências aos grandes escritores europeus, já citados. Por alguns momentos, contudo, há frases e afirmações que soam falsas, forçadas, artificiais na narrativa, mas se há alguma culpa nisso, a única culpa é a própria juventude do autor, que mal completava 19 anos quando terminou sua obra, e flutuava num mundo intelectual que ele ainda não dominava. 


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